Talvez, você já tenha feito o bem para alguém e nem um “tapinha nas costas”, como agradecimento, recebeu. Com Mardoqueu foi pior. Ele salvou o rei da Pérsia de uma emboscada mortal e, além de não receber nenhuma honra imediata, tornou-se alvo de perseguição. Contudo, seu ato heroico foi lembrado, quando ele mais precisava, garantindo-lhe um grande salvamento.
A perseguição foi tramada por um importante oficial do reino, que por pura vaidade, usou sua influência para convencer ao rei de que Mardoqueu representava uma ameaça. Por isso, um decreto foi emitido para exterminá-lo, e também ao seu povo. O homem agiu rapidamente, pedindo intervenção da rainha, enquanto ele e sua gente jejuava e clamava a Deus por livramento.
Uma reviravolta acontece e o plano do oficial foi desmantelado. Quando o rei, finalmente, descobre que nada havia sido feito ao homem que salvou sua vida, decide honrar Mardoqueu, publicamente. O decreto foi anulado e o opositor caiu em sua própria armadilha. Não é maravilhoso pensar, que ações efetivamente justas, produzem recompensas ainda que aparentemente tardias?
Mardoqueu e Sua Convicção
Quem foi Mardoqueu na Bíblia?
Mardoqueu, também conhecido como Mordecai, era um judeu da tribo de Benjamim que vivia na Pérsia. Ele ocupava uma posição de certa influência no reino, sendo um dos que “estavam à porta do rei” (Ester 2:19). Era tio e pai adotivo de Ester, que mais tarde se tornaria rainha. Sua história, registrada no livro de Ester, é um poderoso testemunho de fé, justiça e ação em favor do bem.
O Ato Heroico de Mardoqueu
Em um momento crucial, Mardoqueu descobriu uma conspiração para tirar a vida do rei Assuero, conhecido como Xerxes, e rapidamente denunciou o caso a Ester, que alertou o rei em nome de seu primo (Ester 2:21-23). As informações foram apuradas, e o rei foi salvo do atentado. Apesar do ato heróico, Mardoqueu não foi imediatamente recompensado, mas sua ação foi registrada no livro das crônicas, conforme o costume da época.
Hamã é Exaltado
Mesmo tendo sido Mardoqueu quem salvou a vida do rei, surpreendentemente, quem recebeu exaltação foi Hamã. Este foi um alto oficial da corte do rei Assuero (Ester 3:1) e é um dos homens mais detestados na história bíblica. Sem motivo aparente, Assuero o engrandeceu, colocando-o acima de todos os príncipes. Sua posição de honra determinava que todos os servos do rei se inclinassem perante ele e o reverenciassem (Ester 3:1-2).
A Convicção de Mardoqueu
Todos os servos do rei se inclinavam perante Hamã, “porém Mardoqueu não se inclinava, nem se prostrava”, apesar da ordem do rei (Ester 3:2). Para ele, a reverência era devida apenas a Deus. Curvar-se diante de um homem perverso seria uma violação de sua fé e seus valores. Sua firmeza nessa decisão fez desencadear uma série de eventos complexos. Curiosamente, Hamã era descendente de Agague, rei dos amalequitas, um povo historicamente inimigo dos judeus.
A Ira de Hamã
“Quando Hamã viu que Mardoqueu não se curvava nem se prostrava, ficou muito irado”. A recusa de Mardoqueu foi vista como uma afronta grave. Cheio de orgulho e desejo de poder, Hamã não conseguia aceitar tal desrespeito. Ao descobrir que Mordecai era israelita, sua ira cresceu a tal ponto, que decidiu que a punição de Mordecai não seria suficiente. Talvez, movido por uma inimizade intergeracional, em vez de apenas buscar vingança pessoal, Hamã planejou “uma forma de exterminar todos os judeus, o povo de Mardoqueu, em todo o império de Xerxes”. (Ester 3:5-6). Aqui vemos como a intolerância e o desejo de vingança podem levar à destruição de inocentes.
A Trama de Hamã
A Conspiração de Hamã
Hamã, astutamente, apresentou os judeus a Assuero, como um povo que não seguia as leis do rei e que, portanto, representava um perigo para o reino. Dessa forma, concluiu: “Se for do agrado do rei, que se decrete a destruição deles” e sem revelar suas verdadeiras intenções, convence Assuero. Não questionando a veracidade das afirmações, o rei assinou o decreto que autorizava “exterminar e aniquilar completamente todos os judeus, jovens e idosos, mulheres e crianças, num único dia”. (Ester 3:9-13). Hamã deturpou os fatos para servir aos seus próprios interesses, colocando toda uma linhagem em perigo por causa do posicionamento de um homem.
Mardoqueu Pede Ajuda a Ester
Ao saber do decreto, Mordecai ficou tão angustiado, que vestiu-se de pano de saco e cobriu-se de cinzas, num sinal de luto e desespero, clamando pela salvação de seu povo (Ester 4:1). Ele sabia que a única pessoa com influência suficiente para interceder junto ao rei era a rainha Ester, sua prima. Ele enviou uma mensagem a ela, pedindo que usasse sua posição para interceder em favor dos judeus, lembrando-a: “Quem sabe se não foi para um momento como este que você chegou à posição de rainha?” (Ester 4:13-14).
Ester Aceita o Desafio
Ester, compreendendo a gravidade da situação e o risco que corria, tomou uma decisão corajosa. Embora fosse perigoso se aproximar do rei sem ser convocada, ela aceitou o pedido do primo, sabendo que isso poderia lhe custar a vida. A rainha pediu que todos os judeus jejuassem por ela, durante três dias, enquanto se preparava para falar com o rei (Ester 4:15-17). Sua coragem, fé e estratégia diplomática foram fundamentais para mudar o destino de seu povo.
O Início da Reviravolta
A Noite Inquieta do Rei
Na mesma noite em que Hamã decidiu preparar uma forca para Mordecai, algo incomum aconteceu no palácio: o rei Xerxes não conseguia dormir. Esse momento aparentemente simples foi, na verdade, uma virada decisiva na história. Inquieto e incapaz de descansar, o rei pediu que trouxessem o livro das crônicas, onde estavam registrados os eventos e memórias importantes do reino, para que fossem lidos para ele (Ester 6:1). Essa atitude pode parecer casual, mas foi uma providência de Deus, em resposta ao clamor, jejum e oração, de Mardoqueu e todo o povo.
A Descoberta dos Feitos de Mordecai
Enquanto o livro das crônicas era lido, o rei foi lembrado de que Mardoqueu havia salvado sua vida ao denunciar uma conspiração contra ele. Assuero, surpreso, imediatamente questionou: “Que honra e reconhecimento Mardoqueu recebeu por isso?”. A descoberta de que nada havia sido feito acendeu no rei o desejo de corrigir essa injustiça, desencadeando uma reviravolta inesperada nos planos de Hamã (Ester 6:2-3).
A Decisão do Rei
A decisão do rei Assuero de honrar Mardoqueu publicamente foi uma reviravolta surpreendente. Em Ester 6:4-9, vemos que Hamã estava se preparando para dizer ao rei que enforcasse o hebreu. Mas o rei, sem saber dos planos de Hamã, estava decidido a engrandecer o homem que salvou sua vida. Essa decisão não apenas salvaria Mardoqueu, mas também reverteria completamente a tentativa de destruição planejada por Hamã.
A Importância da Ação
É fascinante perceber como as ações de Mordecai, embora inicialmente ignoradas, foram registradas nos anais do reino, no livro das crônicas, e lembradas no momento crucial. Enquanto os planos malignos de Hamã eram ocultos e feitos nas sombras, as ações heroicas de Mordecai estavam documentadas, prontas para serem reveladas na hora certa. Esse registro trouxe à luz o caráter justo e leal de Mardoqueu, destacando que, mesmo que o reconhecimento não venha de imediato, as boas ações não passam despercebidas para Deus. (Ester 6:2-3).
O Projeto de Hamã Anulado
O Diálogo Entre o Rei e Hamã
“Hamã havia acabado de entrar no pátio externo do palácio para pedir ao rei o enforcamento de Mardoqueu na forca que ele lhe havia preparado.”. Vendo-o, o rei mandou chamá-lo e perguntou: “Que se fará ao homem de cuja honra o rei se agrada?” Hamã, cheio de orgulho, acreditou que o rei estava se referindo a ele. Sem hesitar, sugeriu que esse homem fosse vestido com as vestes reais, montado no cavalo do rei e conduzido pela cidade com uma coroa real em sua cabeça, com um dos príncipes mais nobres do rei proclamando sua honra. Mal sabia Hamã que suas palavras seriam usadas para glorificar Mordecai (Ester 6:4-9).
A Derrocada de Hamã: A Justiça de Deus Nunca Falha
A história de Hamã e Mordecai chega ao ápice com uma reviravolta dramática. Em um momento de grande “ironia do destino”, Hamã, que havia planejado enforcar Mordecai, foi forçado a honrá-lo publicamente, fazendo o que ele mesmo sugeriu ao rei. (Ester 6:11-12). A humilhação foi devastadora para Hamã, pois o homem que ele desprezava foi exaltado diante de todos. Hamã acabou caindo na própria armadilha que havia preparado, confirmando uma verdade poderosa: o mal não prospera para sempre e “O orgulho precede a destruição” (Provérbios 16:18).
Anulação do Decreto
A reviravolta não parou por aí. Quando a trama de Hamã foi finalmente revelada à rainha Ester e ao rei Assuero, o resultado foi a anulação completa de seus planos. Assuero, enfurecido ao descobrir que Hamã havia manipulado a situação para destruir Mordecai e o povo judeu, emitiu um novo decreto que salvava-os e condenava Hamã à morte. Hamã foi enforcado na mesma forca que ele havia preparado para Mordecai (Ester 7:9-10; 8:7-8). Essa virada mostra que a justiça prevalece mesmo diante das tramas mais perversas.
Do Plano a Ação
Proatividade Supera Intenções
A história de Mordecai nos lembra que o que fica registrado não são os planos, mas as ações. Mordecai não apenas planejou fazer o bem ao expor a conspiração contra o rei, ele agiu. E foi essa ação que foi registrada no livro das Crônicas, resultando na sua futura honra (Ester 6:1-3). Muitas vezes, somos tentados a pensar que boas intenções são suficientes, mas é a ação concreta que faz a diferença. Se Mordecai tivesse apenas pensado em salvar o rei, mas não tivesse tomado a atitude certa, sua história poderia ter sido muito diferente. Essa lição nos inspira a sermos proativos em fazer o que é certo, mesmo que o reconhecimento não seja imediato.
Está Escrito e Será Lembrado
O bem que Mordecai fez foi registrado no livro das Crônicas e lembrado no momento certo. Assim como o rei Assuero não dormiu enquanto a maldade de Hamã era preparada, “Certamente, o protetor de Israel não cochila nem dorme!” e, no momento certo, Ele se levanta em favor dos que andam em caminhos justos (Salmo 121:3-4). Essa narrativa nos lembra que há um livro (Sl 56:8), onde um memorial é escrito (Ml 3:16). Essas palavras do Senhor são encorajadoras: “Escrito está diante de mim: Não ficarei calado, mas darei plena retribuição; eu lhes darei total retribuição” (Is 65:6).
Conclusão
Essa narrativa nos ensina que planos, por melhores que sejam, não valem nada sem ação efetiva. O ato heroico de Mardoqueu foi como uma boa semente plantada, que cresceu, em silêncio, e gerou uma excelente colheita. Mesmo sem reconhecimento imediato e sendo ameaçado de morte, ele resistiu ao espírito de intimidação representado em Hamã e permaneceu firme em suas convicções.
O plano de Hamã deixou Mardoqueu apavorado, levando-o a se humilhar e clamar por livramento. Da mesma forma, o maligno nos afronta com seus planos, nos pressionando para desistirmos de nossa convicção em Deus. Mas o caminho da reviravolta é o mesmo: nos humilhando aos pés do Senhor em oração, jejum e ação estratégica, devolvendo a pressão, no reino espiritual. O nosso Rei também não dorme, ele age no tempo oportuno.
Não existe plano de morte que se mantenha de pé, quando o Rei decide intervir em favor de quem age com diligência e integridade. Os projetos intimidatórios do inimigo jamais serão maiores que os decretos de Deus. Se você fez o bem e foi esquecido, saiba que a colheita é certa e não será apenas um “tapinha nas costas”, mas uma mesa preparada, na presença do seu inimigo (Sl 23:5). Todos os feitos ficam registrados no memorial de Deus e serão trazidos à luz para livramento e honra.
📢
Abençoe alguém compartilhando este artigo! Sua ação pode ser uma resposta de Deus para alguém hoje.