“Meu coração se alegra no Senhor; o Senhor me fortaleceu! Agora dou risada de meus inimigos; sim, eu me alegro porque me libertaste! Quem vê Ana cantando assim, nem imagina a jornada de perseverança até conseguir superar Penina, sua rival, e a esterilidade. Um caminho de vergonha e dor que se transformou em louvor.
Ana enfrentou a dor de não ter filhos, em uma época em que ser mãe era altamente valorizada. Penina, a outra esposa de Elcana, tinha filhos e provocava Ana por não poder conceber. Essa rivalidade acirrada, somada a esterilidade, aumentou o sofrimento de Ana, tornando sua luta emocional e espiritual ainda mais intensa.
Em meio a essa condição de afronta, Ana fez um voto, prometendo entregar seu filho ao serviço sacerdotal, se Deus lhe permitisse conceber. Deus atendeu seu clamor e Ana deu à luz. Assim, superou a rivalidade e a esterilidade, quando seu desejo pessoal de ter um filho se alinhou com o propósito de Deus de levantar um profeta em Israel.
Contexto Histórico e Familiar
A Nação Precisava de Juiz, Sacerdote e Profeta
A história de Ana se passou durante o período dos juízes em Israel, uma época de grande instabilidade política e espiritual. Essa fase, que precedeu a monarquia israelense, foi um tempo em que “cada um fazia o que parecia certo aos seus próprios olhos” (Juízes 21:25), refletindo a falta de liderança centralizada e a decadência moral e religiosa do povo. Viviam, portanto, repetidos ciclos em que desobedeciam a Deus, sofriam opressão estrangeira, lembravam de clamar por ajuda e Deus lhes socorria. Havia, portanto, necessidade de se levantar juiz, sacerdote e profeta em Israel.
Ana: Mulher Devota e Estéril
Ana, mulher de Elcana, sentia muita tristeza e vergonha por não ser mãe. Ela ansiava muito por um filho, não apenas para cumprir seu papel na sociedade, como também para satisfazer seu desejo pessoal. Mas “o Senhor lhe tinha cerrado a madre” (1 Samuel 1:6) e isso nos leva a refletir que, realmente, “os filhos são herança do Senhor” (Salmo 127:3). Ou seja, conforme for Seus planos para uma mulher ou casal, eles podem até fazer “amor”, mas filhos, quem dá é Deus.
Elcana: Homem Piedoso
Elcana era um homem piedoso da tribo de Efraim e era um levita, descendente de Coate. Conhecido, principalmente, por ser o marido de Ana e Penina, e o pai do profeta Samuel. Sua devoção a Deus e sua prática religiosa regular destacam-se na narrativa bíblica, mostrando-o como um homem de fé que seguia os mandamentos e participava ativamente dos rituais sagrados de Israel.
Dinâmica Familiar
Elcana tinha duas esposas, Ana e Penina (1 Samuel 1:2). Embora a poligamia fosse culturalmente aceitável na época, isso muitas vezes criava tensões familiares. Elcana desempenhava um papel complicado nessa dinâmica familiar, tentando equilibrar as tensões com amor e cuidado. Ele amava muito a Ana, mas sua outra esposa, Penina, também desempenhava um papel significativo na família, porque tinha filhos.
O Amor de Elcana
O amor de Elcana por Ana era evidente em suas ações. Em um momento de compaixão, Ele a perguntou: “por que choras? E por que não comes? Por que estás triste? Não sou eu melhor para você do que dez filhos?” (1 Samuel 1:8). Esta pergunta reflete seu desejo de aliviar a dor de sua esposa, reafirmando seu valor para ele, apesar de sua incapacidade de ter filhos.
Honra Pública
Durante as viagens anuais ao tabernáculo em Siló para oferecer sacrifícios, Elcana dava porções à Penina e a todos os seus filhos, “Porém a Ana dava uma parte excelente; porque amava a Ana, embora o Senhor lhe tivesse cerrado a madre.” (I Samuel 1:5). Na cultura bíblica, as porções de sacrifícios eram uma forma de honrar e mostrar afeto. Ao dar a Ana uma peça dupla, Elcana demonstrou publicamente seu amor e preferência por ela.
Causa e Consequência da Rivalidade com Penina
Dor Emocional e Espiritual
Na sociedade da época, a maternidade era altamente valorizada e considerada uma vitória divina. A capacidade de gerar filhos proporcionava segurança e status (posição) às mulheres, além de assegurar a continuidade da linhagem familiar. A esterilidade de Ana, portanto, trazia-lhe grande dor emocional e espiritual. Ela se sentia incompleta e envergonhada duplamente: por não poder cumprir o papel esperado de uma esposa, na cultura de sua época e pela constante humilhação que sofria de Penina.
Excessivas Provocações
1 Samuel 1: 6 e 7 descreve que Penina, a outra esposa de Elcana, provocava Ana de diversas maneiras, veja: “E a sua rival excessivamente a provocava, para a irritar.” e “Sempre que Ana subia à casa do Senhor, a outra a irritava; por isso chorava, e não comia.”. Como visto, as provocações de Penina eram cruéis e constantes, exacerbando a dor e humilhação de Ana, destacando uma rivalidade amarga entre as duas mulheres.
Refúgio na Oração
Quando a situação se tornou insuportável, Ana buscou refúgio na oração. “Então Ana se levantou” e, no templo do Senhor, junto a um pilar, “com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente” (1 Samuel 1:9-10). O texto bíblico destaca que “orava Ana no seu coração, e só se moviam os seus lábios, porém não se ouvia a sua voz” (1 Samuel 1:13), mostrando a intensidade de sua comunhão com Deus naquele momento crucial.
O Clamor de Ana e a Resposta de Deus
O Voto de Ana
No tabernáculo, Ana fez um voto ao Senhor, dizendo: “Senhor dos Exércitos, se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva não te esqueceres, mas à tua serva deres um filho homem, ao Senhor o darei todos os dias da sua vida” (1 Samuel 1:11). Ana não apenas suplicou a Deus por uma criança, mas também fez uma promessa: se Deus lhe desse um filho, ela o dedicaria ao serviço divino por toda a sua vida.
Ana e o Sacerdote Eli
Enquanto Ana orava fervorosamente, o sacerdote Eli, inicialmente, achou que ela estivesse embriagada. No entanto, ela explicou que não estava bêbada, mas sim aflita de espírito, derramando seu coração perante o Senhor. Diante dessa sincera demonstração de contrição, Eli a abençoou, dizendo: “Vai em paz; e o Deus de Israel te concede a petição que lhe fizeste”. Essas palavras fortaleceram Ana, pelo que “comeu, e o seu semblante já não era triste” (1 Samuel 1:14-18).
O Senhor se Lembrou de Ana
De volta para casa, Ana e Elcana se amaram “e o Senhor se lembrou dela. E sucedeu que, passado algum tempo, Ana concebeu, e deu à luz um filho, ao qual chamou Samuel” (1 Samuel 1:19-20), que significa “pedido a Deus”. Ela cuidou do menino até que fosse desmamado e pudesse entregá-lo ao Senhor, conforme o voto que fizera. “Eu o pedi ao Senhor; pelo que também eu o entreguei ao Senhor; todos os dias da sua vida.” (1 Samuel 1:27-28 ).
A Vida Transformada de Ana
O Cântico de Ana
O nascimento de Samuel trouxe tanta alegria para Ana, que ela expressou sua gratidão a Deus através de um cântico, conhecido como o “Cântico de Ana”, que dizia: “A minha alma se alegra no Senhor, e o meu espírito se regozija em Deus meu Salvador” (1 Samuel 2:1). Essa canção não apenas celebrou a vitória do nascimento de Samuel, como também exaltou a grandeza e o poder de Deus, confirmando que Ele é o Senhor soberano sobre todas as situações da vida.
Dinâmica do Lar Restaurada
E ela continua: “Agora dou risada de meus inimigos; sim, eu me alegro porque me libertaste!” (1 Samuel 2:1). Após anos de sofrimento, com a chegada de Samuel, a vida de Ana e a dinâmica familiar mudou significativamente. Ele não era apenas um filho para Ana e Elcana, mas um símbolo vivo da fidelidade de Deus e de sua resposta às orações sinceras. A presença de Samuel trouxe uma nova luz ao lar, restaurando a esperança onde antes havia desespero.
O Cumprimento do Voto de Ana
Após o desmame de Samuel, Ana cumpriu fielmente seu voto de entregá-lo para sempre aos serviços do Senhor. E, de volta ao templo, disse ao Sacerdote: “Por este menino orava eu; e o Senhor atendeu à minha petição”. Este ato foi mais que um cumprimento de uma promessa feita em desespero, mas uma demonstração tangível de sua fé e gratidão a Deus.
Ana Queria um Filho – Deus Queria um Profeta
A alegria de Ana foi imensa: não só pela vitória de gerar seu Samuel depois de tanta luta, mas também por saber que seu filho fazia parte de um propósito divino tanto para ela, como para a nação de Israel, que naquele tempo necessitava de líderes e profetas comprometidos com Deus. Quando sua oração de ter um filho e entregá-lo aos serviços do Senhor, se alinhou ao plano de Deus de trazer governo ao povo, sua vida destravou. Os muitos filhos de Penina, não se sabe nem o nome, mas Samuel tornou-se sacerdote, profeta e juiz em Israel, cumprindo fielmente o chamado de Deus e deixando um legado de fé e liderança para as gerações futuras.
Conclusão
A jornada de Ana é uma história de perseverança, fé e superação. Ela passou anos de sua vida numa condição desfavorável, tendo que enfrentar a vergonho da sociedade e um desgaste emocional dentro da própria casa. A história dessa mulher oferece lições sobre como lidar com afrontas e rivalidades. Apesar de constantes provocações ela não revidou, mas encontrou consolo e resposta na oração humildade e cheia de fé.
O desejo ardente de Ana por um filho precisava se alinhar com a vontade soberana de Deus para ela e para a nação de Israel. Ela ansiava por um filho, para preencher seu coração com alegria materna, enquanto Deus, em Sua sabedoria divina, desejava não apenas atender ao pedido de dela, mas também estabelecer um profeta dedicado para guiar Israel em tempos de incerteza e necessidade espiritual.
A história de Ana e o nascimento de Samuel não é apenas um testemunho de resposta à orações individuais, mas também um lembrete poderoso de como os propósitos de Deus transcendem nossos desejos pessoais. As vezes, um grande sonho que queima em nosso peito, faz parte de um plano grandioso que beneficiará além de nós mesmos.