Segredos da Expressão “Era-lhe Necessário Passar Em Samaria”

“Era-lhe necessário passar em Samaria”, por quê? Em um tempo e lugar onde a rivalidade entre judeus e samaritanos era enraizada, Jesus optou por passar em Samaria, quebrando todas as convenções sociais e culturais existentes. Sua escolha demonstrou a universalidade de sua mensagem e a extensão de sua compaixão, que ultrapassa todas as barreiras.

Geograficamente, a viagem de Jesus começou na Judeia, com destino à Galileia. Tradicionalmente, os judeus evitavam passar por Samaria, preferindo uma rota mais longa para contornar a região, devido à hostilidade entre os dois povos. No entanto, Jesus escolheu, justamente, quebrar o padrão. Uma decisão que não era apenas prática, mas também repleta de propósito.

Essa estratégia de Jesus culminou em um encontro transformador com uma mulher samaritana e que resultou em uma conversão em massa dos samaritanos daquela cidade. Isso demonstra que o evangelho transcende limites e tabus humanos e que o “necessário” de Jesus ia muito além de uma simples escolha de rota. 

O Desvio Estratégico – Geografia e Tempo

A Rivalidade Histórica

O relacionamento entre judeus e samaritanos, na época de Jesus, era marcado por uma profunda hostilidade e desconfiança mútua. Ambos os grupos compartilhavam heranças em comum, mas divergiam em suas práticas religiosas e tradições. Os judeus consideravam os samaritanos inferiores e, por isso, evitavam interações sociais e religiosas. Essa animosidade era tão forte que a simples menção de cada grupo evocava sentimentos de separação e rivalidade. 

A Rota Alternativa

A maioria dos judeus, ao viajar da Judeia para a Galileia, evitava passar por Samaria, optando por um caminho alternativo e mais longo. Essa rota envolvia atravessar o rio Jordão para o leste, seguir pelas regiões de Pereia e Decápolis, e depois recruzar o Jordão para entrar na Galileia. Evitar Samaria era visto como uma forma de se esquivar de confrontos e manter as tradições.

O Preço da Inimizade

O caminho alternativo, no entanto, significava aumentar consideravelmente o tempo de viagem. Enquanto a rota direta por Samaria levava aproximadamente três dias, o trajeto que contornava a região podia estender a jornada por até seis. Além do tempo extra, esse itinerário era mais perigoso, expondo os viajantes a áreas montanhosas e desérticas, onde o risco de assaltos e as condições climáticas adversas eram acentuadas. Você já preferiu viajar o dobro do tempo, se cansar mais que o necessário e se expor a perigos, simplesmente para se esquivar de alguém? Esse era o preço da inimizade para os judeus.

A Estratégia de Jesus

Jesus resolve fazer diferente. Entenda, seguir pela rota de costume dos judeus, além de gastar tempo e esforço físico a mais, significava concordar e manter a tradição de rivalidade entre os dois povos. Entretanto, João 4:4 vai enfatizar que “Era-lhe necessário passar por Samaria”, pois sabia que Sua mensagem faria a diferença, pois transcende os limites de raça, preconceitos e culturas. 

A Parada no Poço – Um Momento Preparado

O Poço de Jacó

Como já foi dito, apesar das diferenças e tensões entre judeus e samaritanos, havia coisas em comum entre eles. Localizado perto da cidade de Sicar, em Samaria, o Poço de Jacó é um lugar de grande significado para os dois povos. Para os judeus, por ser associado a Jacó, o terceiro patriarca de Israel, confere um grande valor histórico e espiritual. Para os samaritanos, era um importante símbolo de herança. O Poço de Jacó foi o cenário crucial, nesta narrativa.

Pausa Para Descanso

Quando Jesus chegou ao Poço de Jacó, Ele estava fisicamente cansado da jornada e “assentou-se assim junto da fonte” (João 4:6). Esse momento destaca a humanidade de Jesus, que, embora fosse divino, também experimentava as limitações e necessidades de um ser humano. E nós totalmente humanos, às vezes, queremos “parecer” incansáveis, não respeitando nossos limites. Chama-nos a atenção que descansar junto ao poço, infere um local estratégico para se refrigerar. Precisamos, portanto, discernir quando e onde vamos parar para descansar. Adiante, Jesus se revelará como a “fonte”, um lugar de alívio, para quem Nele acredita. 

Coincidência ou Propósito?

O local do descanso, definitivamente, não foi uma coincidência, mas a preparação de um plano. Era o lugar certo e a hora certa para  encontrar a samaritana. A mulher buscava água, naquele horário específico, quando o poço era pouco movimentado, justamente, para não ser rejeitada pelas pessoas, dada à sua condição de “pecadora”. Isso sinaliza o propósito na escolha do lugar e da hora exata para a pausa da viagem.

O Encontro Planejado e a Quebra de Protocolos

A Onisciência de Jesus

O encontro meticulosamente planejado revelava a onisciência de Jesus. Antes de chegar ao poço, Ele já sabia: a identidade da mulher, o horário exato em que ela chegaria para buscar água, bem como sua condição social. Jesus compreendeu que aquele encontro seria transformador tanto para a mulher quanto para a comunidade samaritana, evidenciando como cada passo de Sua jornada era guiado por um plano bem arquitetado.

A Condição da Samaritana

A mulher samaritana vivia em uma condição de isolamento social. Por ser mulher, já enfrentava uma posição de menor valor em uma cultura patriarcal, mas sua situação era agravada pelos múltiplos relacionamentos que tivera. Ela havia sido casada cinco vezes e, na época do encontro, vivia com um homem que não era seu marido, e a sociedade a considerava imoral. Por causa desses fatores, ela era vista com desprezo e evitada por outros, o que a obrigava a buscar água, no poço, em horários incomuns, quando não precisaria enfrentar o julgamento e a rejeição dos demais (João 4:18). 

Quebrando Convenções

O contato com uma mulher considerada adúltera era totalmente evitado, tanto entre os judeus, como entre os samaritanos. Então, imagine o duplo escândalo para a época: primeiro, porque Jesus, sendo judeu, estava conversando com uma mulher samaritana; segundo, porque além de samaritana, a mulher era rejeitada pela sociedade. Quebra total de convenções de etnia, cultural e religiosa, mostrando que Ele não carregava nenhum tipo de preconceito e sua mensagem era universal.

Por que Ela?

Foi precisamente a realidade de marginalização que a samaritana vivia, que fez com que ela fosse a pessoa escolhida para esse encontro. A abordagem de Jesus evidencia que Ele vê além das aparências e das circunstâncias, reconheceu nela um coração pronto para receber a verdade que Ele tinha a oferecer. Fazia parte de Seu ministério terreno atender justamente os necessitados, conforme disse em Marcos 2:17: “Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento.”. Jesus sabia que a gratidão que a samaritana sentiria por ter sua vida transformada, a partir daquele encontro, a habilitaria para ser uma audaciosa mensageira da Palavra Viva, alcançando a muitos.

O Resultado da Estratégia

O Diálogo Transformador

Jesus começa o diálogo com um pedido simples: “Dá-me de beber”, o que surpreende a mulher que responde: “Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?”. Em seguida, Jesus ofereceu-lhe a “água viva,” uma metáfora para a vida espiritual plena que Ele proporciona. Quando Jesus, intencionalmente, diz: “chama o teu marido”, dando a ela a chance de confessar: “Não tenho marido”, Ele começa a revelar detalhes de sua situação: “tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade.”. Ela poderia ter negado suas falhas como, muitas vezes, fazemos, mas ela foi humilde e sincera, confessou e reconheceu: “vejo que és profeta.” (João 4:7 a 19). Se tem alguém, para quem não devemos ter vergonha de expor nossas falhas, é para Jesus.

O Reconhecimento do Messias

Na sequência, a samaritana questiona a antiga divisão entre judeus e samaritanos sobre o local correto de adorar, pois ela queria “acertar” sua vida. Jesus, porém, trouxe uma revelação surpreendente: nem neste monte – costume dos samaritanos, nem em Jerusalém – costume dos judeus. Dessa forma, mostrou que o culto não estaria mais restrito a lugares físicos, pois declarou que “vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (João 4:23). Assim, Jesus se revelou à mulher como o Messias e rompeu mais um costume enraizado, mostrando que, a partir Dele, ter um relacionamento autêntico com Deus está acessível a todos, independente da cultura e geografia (João 4:20-26). 

Conversão Imediata

A conversão da mulher foi imediata. Ao compreender que estava diante do Messias, ela deixou seu cântaro no poço e correu de volta à cidade, anunciando a todos sobre o homem que havia contado tudo sobre sua vida. Sua mensagem foi tão poderosa que muitos samaritanos vieram ouvir Jesus por si mesmos, e muitos creram nEle e disseram à mulher: “Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo.” (João 4:28-30).

O Resultado da Viagem

O efeito do plano de Jesus foi tão expressivo, que “os samaritanos, rogaram-lhe que ficasse com eles; e ficou ali dois dias.”. Tendo em vista que Jesus ficou dois dias em Samaria, para depois seguir para seu destino final, a Galileia, Ele acabou gastando quase o mesmo tempo de viagem, que teria gasto, se fizesse o trajeto tradicional. Contudo, chegaria muito mais cansado e fazendo “mais do mesmo”, sem colocar seu plano de “tocar vidas” em ação.

O Pretexto e Contexto da Água 

Uma curiosidade sobre o encontro de Jesus com a samaritana é que, embora Ele estivesse fisicamente com sede, o pedido de água serviu como um pretexto, pois Ele se comparou com a “água”, porém, água que sacia a sede espiritual (João 4:10). Interessante é que, a samaritana, que foi ao poço buscar água, deixou o cântaro para trás, quando correu para anunciar as boas novas à sua cidade. Curiosamente, nem Jesus bebeu da água que pediu, nem a samaritana levou a água física que fora buscar. Mas certamente, levou a “água viva”.

Paralelos e Aplicação

Qual é a sua Samaria?

Todos nós enfrentamos situações na vida que preferimos evitar, seja por medo de conflito, ou por não querermos nos indispor com pessoas. Essas “Samarias” pessoais são desafios que deixamos de lado, esperando que o tempo ou as circunstâncias os resolvam por si mesmos. No entanto, ao evitar essas situações, muitas vezes acabamos prolongando o problema, gastando mais tempo, energia e recursos do que se tivéssemos enfrentado o desafio desde o início.

Confronto Necessário

Enfrentar problemas enraizados, realmente, pode ser muito desconfortável, no início, mas é essencial para a verdadeira paz e progresso. O mundo precisa, justamente, de pessoas que resolvam problemas, por isso, a lição de Jesus é clara: “Passe por Samaria”. As consequências de evitar o confronto necessário, podem incluir prejuízos financeiros, desgastes nas relações, feridas emocionais e espirituais. Enfrentar nossas “Samarias”, certamente,  traz transformação significativa, tanto para quem dá o primeiro passo, quanto para quem aceita a mudança de mentalidade. 

Enfrente a Situação

 Não permita que o medo do confronto prolongue sua jornada; tome a iniciativa de propor diálogos, resolver pendências, liberar perdão. Ainda que seja difícil, fará você chegar mais leve ao seu destino.Se tem de resolver, resolva, logo.

Conclusão

Mostramos, nessa narrativa, como o “necessário passar por Samaria” foi muito além de apenas encurtar uma jornada física. Com essa decisão, Jesus escolheu romper com uma divisão histórica entre dois povos, por meio de uma mensagem de amor universal e transformadora. O encontro planejado dignificou a mulher samaritana e, por meio dela, conciliou uma comunidade inteira. 

O verdadeiro propósito dessa escolha não estava no caminho percorrido, mas nas vidas que seriam tocadas e transformadas através deste ato. Este relato nos convida a refletir sobre como, muitas vezes, Deus nos conduz por caminhos inesperados, à primeira vista, desafiadores ou desconfortáveis, visando um propósito maior que nós mesmos. Melhor é não deixar diferenças e desentendimentos criarem raízes tão profundas. Então, se “é necessário passar por Samaria”, que passemos, logo.

Somos desafiados a encarar nossas próprias “Samarias,” e “fazer o que precisa ser feito”, com maturidade. Porque melhor que chegar ao destino é chegar inteiro: sem pendências, sem coisas mal resolvidas, com relacionamentos restaurados, de cabeça erguida. É sobre chegar, mas chegar completo. 

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