Por que a serpente iniciou a conversa com Eva e não com Adão? Por que a mulher, se a ordenança de “cultivar e guardar” foi dada claramente ao homem e Eva era “apenas” uma “ajudadora”. Essas são algumas questões que povoam o imaginário de muita gente.
A mulher esteve envolvida no pior episódio da humanidade, que trouxe discriminação e estigma sobre ela: a queda no Éden. Contudo, quando Deus estabelece uma inimizade, não com o homem, mas entre a mulher e a serpente, quebra-se o estigma de culpa. Desde então, a história da humanidade carrega marcas deste conflito espiritual.
O que você e eu precisamos entender é que as fraquezas de Eva, evidenciadas naquele fatídico episódio, refletem gatilhos perigosos que continuam sendo armadilhas até hoje. Veremos, neste artigo, que Deus sempre prepara um caminho de restauração para Seus filhos e que a mulher foi incluída na promessa de redenção, recebendo a Graça de gerar Aquele que triunfa sobre o mal.
O Contexto da Criação do Homem e da Mulher
Imagem e Semelhança de Deus
Gênesis 1:27 nos ensina que homem e mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus, revelando algo fundamental: a humanidade só é completa quando consideramos o homem e a mulher, pois ambos refletem aspectos do caráter divino. A masculinidade e a feminilidade foram desenhadas por Deus para expressar Sua natureza, de maneira única e complementar. O renomado teólogo John Stott disse: “O homem sem a mulher não é completo, e a mulher sem o homem também não é. Deus os criou para se complementarem, não para competirem.” Assim, desde o princípio, vemos que a mulher não foi um “acréscimo”, mas parte do plano divino para a humanidade.
Adão Sente Falta de Uma Semelhante
Antes de criar a mulher, Deus deu a Adão uma tarefa curiosa: dar nome a todos os animais (Gênesis 2:19). Nesse processo, algo ficou evidente para ele: todos os animais tinham pares — macho e fêmea, mas não achava ninguém semelhante a ele (Gênesis 2:20). Foi ali que ele sentiu a solidão de maneira real. O Criador poderia ter formado uma mulher imediatamente, mas permitiu que Adão identificasse sua própria necessidade primeiro. Isso nos ensina algo valioso: às vezes, Deus permite que sintamos a falta de algo para que possamos valorizar mais quando Ele nos dá.
O Propósito na Criação da Mulher
A Criação do Que Faltava
Depois de criar tudo e declarar que era bom, Deus fez uma observação surpreendente: “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2:18). Aqui, vemos algo único — pela primeira vez, Deus diz que algo não está completo. Eva não era apenas mais um ser vivo no jardim — ela era a resposta de Deus para uma necessidade real de estabelecer uma companheira para Adão e juntos, refletirem a imagem de Deus. Além disso, o mandato de “frutificar, multiplicar e encher a terra” (Gênesis 1:28) foi dado tanto ao homem quanto à mulher, mostrando que ambos tinham autoridade e corresponsabilidade sobre a criação.
Mais do Que Parece
Quando Deus decidiu criar a mulher, Ele usou palavras precisas para descrever seu papel: “Far-lhe-ei uma ajudadora idônea” (Gênesis 2:18). Mas, o que isso realmente significa? Muitas pessoas interpretam essa frase de forma errada, como se a mulher fosse apenas um auxílio secundário para o homem. No entanto, no original hebraico “ezer kenegdo”, as palavras “auxiliadora idônea” revelam mais do que parece.
“Ajudadora Idônea”
O termo “ajudadora” ou adjutora, do hebraico “ezer” (עֵזֶר), é a mesma palavra que foi usada para descrever Deus como o socorro do Seu povo em Salmos 121:1-2: “O meu socorro vem do Senhor”. Ou seja, literalmente, destacando uma ajuda indispensável de alguém que fortalece e sustenta; aquela que percebe, que revela o inimigo, que dá cobertura enquanto o homem está cuidando da terra. Já a palavra “idônea”, no hebraico kenegdo, significa “correspondente e compatível”.
A Especificidade da Mulher
Edificada para Edificar
E da costela do homem formou Deus uma mulher (Gênesis 2:22). O verbo “formar”, em hebraico, “banah”, significa construir, edificar. Deus não apenas fez a mulher, Ele a edificou. Isso não é um detalhe qualquer, pois em Provérbios 14:1 lemos: “A mulher sábia edifica a sua casa, mas a tola a derruba com as próprias mãos.” A própria essência da mulher já carrega esse propósito: ela foi edificada para edificar. Assim, uma mulher sábia edifica sua família, seus relacionamentos e o ambiente ao seu redor com discernimento e graça.
Por que da Costela?
Por que Deus escolheu formar a mulher da costela do homem? Ele tinha um propósito até no material escolhido. Matthew Henry, um dos grandes comentaristas bíblicos, descreveu isso lindamente: “A mulher foi feita da costela do homem; não da cabeça para dominá-lo, nem dos pés para ser pisada por ele, mas do lado, para ser igual a ele; debaixo do braço, para ser protegido; perto do coração, para ser amada.” Esse detalhe nos ensina muito. A costela está no meio do corpo, simbolizando igualdade e proximidade.
“Osso dos Meus Ossos”
Quando Adão viu Eva pela primeira vez, percebeu que ela era diferente de tudo o que havia visto antes. Suas palavras refletem sua emoção e gratidão: “Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gênesis 2:23). Adão não apenas constatou a compatibilidade, mas celebrou a dádiva que Deus lhe havia concedido.
Resistência e Sensibilidade: A Dupla Força da Mulher
Muitas vezes, ouvimos dizer que a mulher é frágil, mas será que isso significa fraqueza? Charles Spurgeon certa vez destacou que o osso representa resistência, pois se a mulher fosse feita de músculos, poderia se desgastar, mas sendo formada de osso, ela é feita para suportar. Ela pode ser emocional, sensível e intuitiva, mas isso não significa fragilidade no sentido negativo. Sua sensibilidade é sua força.
Mesmo frágil, no sentido de estrutura física comparada ao homem, a mulher foi projetada para carregar a vida dentro de si, suportar dores e complementar a força do homem, criando um equilíbrio perfeito: “Osso dos Meus Ossos”.
A Queda: O Envolvimento da Mulher e a Estratégia da Serpente
Um Enganador Sutil
A serpente, mais astuta que todos os animais do campo (Gênesis 3:1), não apareceu de forma assustadora ou ameaçadora, mas disfarçada de sutileza e persuasão. Enquanto Adão e Eva estavam nus, em total transparência diante de Deus, a serpente estava vestida de engano. Seu objetivo era afastá-los da verdade e plantar a semente da desobediência. O método usado por Satanás desde o princípio permanece o mesmo: a sutileza em travestir a verdade para gerar confusão e dúvida no coração humano.
O Alvo: Por Que Eva e Não Adão?
Por que Satanás decidiu dialogar com Eva e não com Adão? Alguns estudiosos sugerem que a mulher, por sua natureza comunicativa e relacional, seria mais receptiva ao diálogo e à influência. Deus a dotou dessa habilidade para o bem, mas onde há dom, também há vulnerabilidade. Aquilo que é nosso talento pode se tornar um ponto de ataque se não estivermos atentos.
Além disso, Adão havia recebido diretamente de Deus a instrução sobre o fruto proibido (Gênesis 2:16-17), enquanto Eva, provavelmente, ouviu isso por meio dele. Satanás explorou essa brecha, tentando confundir o que Deus havia dito. Isso não significa que Eva fosse inferior, mas foi alvo de uma estratégia específica para atingir a humanidade.
Distorcendo a Palavra de Deus
O primeiro passo do inimigo foi plantar uma dúvida: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” (Gênesis 3:1). O tom sarcástico e sugestivo da serpente fez com que Eva repensasse o que Deus realmente havia dito. Aqui está um alerta para nossos dias: quando começamos a questionar a Palavra de Deus sob a influência do engano, estamos a um passo da queda.
Eva contraargumentou, mas cometeu um erro. Ela acrescentou uma ordem que Deus nunca deu: “Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais” (Gênesis 3:3). Deus nunca disse que tocar no fruto seria pecado, apenas que não deveria comê-lo. Esse pequeno detalhe revela um perigo: quando não temos clareza sobre a Palavra de Deus, somos mais suscetíveis à manipulação e ao engano. Isso é comum, infelizmente.
A Isca: Conhecimento e Poder
Após plantar uma dúvida, a serpente fez uma oferta irresistível: “Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os seus olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (Gênesis 3:4-5). Eva caiu na armadilha porque Satanás ofereceu um atalho para algo que parecia bom: conhecimento e poder. O desejo de ser “como Deus” era uma proposta sedutora. O inimigo sempre vende ilusões de independência e grandeza, mas o que ele realmente entrega é escravidão e ruína.
A Fraqueza Humana: Quando Olhamos para o Lugar Errado
A Bíblia descreve o momento exato da tentação e da queda: “Vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, agradável aos olhos, e árvore útil para dar entendimento, tomou do seu fruto e comeu” (Gênesis 3:6).
Eva foi levada por três gatilhos perigosos que continuam sendo armadilhas até hoje:
Concupiscência da carne – “Era boa para se comer.”
Concupiscência dos olhos – “Agradável aos olhos.”
Soberba da vida – “Desejável para dar entendimento.”
Esses três fatores são os mesmos que João menciona em sua carta: “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo” (1 João 2:16). O inimigo não é criativo, mas é eficiente. Ele continua usando as mesmas estratégias ao longo da história para afastar as pessoas de Deus.
Como Evitar as Armadilhas do Engano?
A queda de Eva nos ensina que precisamos estar firmados na Palavra de Deus e vigilantes contra as artimanhas do inimigo. Aqui estão três lições práticas:
Conheça a Palavra de Deus com profundidade – Não basta ter uma noção superficial. Precisamos ter clareza sobre o que Deus realmente disse para não sermos enganados por distorções.
Tenha discernimento espiritual – O inimigo sempre fará parecer que o pecado é algo bom e vantajoso. Se não tivermos discernimento, podemos cair em suas armadilhas.
Confie no caráter de Deus – Eva foi levada a pensar que Deus estava escondendo algo bom dela. Essa é uma das mentiras mais antigas de Satanás: fazer-nos duvidar da segurança de Deus. Precisamos confiar que Deus tem o melhor para nós e que sua vontade é perfeita.
As Consequências do Pecado: Vergonha, Confronto e Misericórdia
Vergonha e Tentativa de se Esconder
Logo após comerem do fruto proibido, Adão e Eva perceberam algo que nunca haviam sentido antes: vergonha. A pureza que os envolvia foi substituída por um peso sufocante, e a primeira reação foi tentar cobrir-se e esconder-se de Deus (Gênesis 3:7). Isso não acontece apenas com Adão e Eva. Sempre que erramos, nossa tendência natural é tentar encobrir nosso pecado com justificativas, boas ações ou até o mesmo distanciamento de Deus. Mas será que realmente podemos nos esconder dele?
É Possível Esconder-se de Deus?
Deus caminha pelo jardim e chama: “Adão, onde estás?” (Gênesis 3:9). Ele sabia exatamente onde Adão estava, mas essa pergunta era uma oportunidade para confissão e arrependimento. Deus não invade corações sem permissão, Ele nos convida ao encontro. Davi expressou essa verdade com profundidade: “Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face?” (Salmos 139:7). Não importa o quanto tentemos nos esconder, Deus sempre nos vê. Mas, ao invés de temermos Sua presença, devemos correr para Ele, porque somente n’Ele encontramos redenção.
O Confronto: Quem Deus Responsabiliza Primeiro?
Quando Deus confronta o pecado, Ele começa por Adão: “Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?” (Gênesis 3:11). Como líder e responsável pelo jardim, Adão deveria ter protegido Eva e permanecer firme na ordem divina. Mas, ao invés disso, ele transfere a culpa: “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e eu comi” (Gênesis 3:12). Quando Deus se volta para Eva, ela segue o mesmo caminho de Adão e transfere a culpa: “A serpente me enganou, e eu comi” (Gênesis 3:13). Essas respostas revelam um padrão humano recorrente: culpar os outros em vez de assumir a responsabilidade. No entanto, Deus julga cada um de acordo com suas ações.
Consequências
Independente do perdão, todo ato traz uma consequência. Deus pronunciou sentenças distintas para cada um dos envolvidos. A serpente, como símbolo do mal, foi condenada a rastejar sobre seu ventre, a comer pó e a ser odiada pela mulher e sua descendência (Gênesis 3:14-15). Para a mulher, Deus disse: “Multiplicarei grandemente a dor da tua gravidez” (Gênesis 3:16). A dor no parto, portanto, é um reflexo direto da queda, mas ela não é apenas um símbolo de tristeza, mas se torna um símbolo da luta pela redenção. Como escreveu o teólogo CS Lewis, “o mal não é mais que uma caricatura do bem, e a mulher, com sua capacidade única de gerar vida, simboliza a esperança de uma vitória que ainda virá”. Já para o homem, a sentença foi: “com o suor do teu rosto comerás o teu pão” (Gênesis 3:19). Assim, foram lançados fora do jardim do Éden (Gênesis 3:23).
O Papel da Mulher na Profecia
“Porei inimizade entre ti e a mulher”, entre a tua semente e a sua semente, esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Esse verso é parte de Gênesis 3:15, conhecido como o Protoevangelho (primeira profecia do evangelho na Bíblia). Deus está falando diretamente à serpente (Satanás) após a queda de Adão e Eva no Éden.
“Esta te ferirá a cabeça” → A “descendência da mulher” refere-se a Jesus Cristo, que venceria Satanás e sua obra. Ferir a cabeça simboliza uma derrota definitiva, pois um golpe na cabeça é fatal. Na cruz e na ressurreição, Cristo esmagou o poder do pecado e da morte, garantindo a redenção da humanidade.
“E tu ferirás o calcanhar” → A serpente (Satanás) feriria a descendência da mulher, representando o sofrimento de Cristo na cruz. O calcanhar é uma parte vulnerável, mas não letal, inferior que, apesar da dor e da morte de Jesus, Sua vitória estava garantida.
Inimizade e Promessa de Redenção
Esse verso também marca o início de um conflito espiritual entre Satanás e a humanidade, representada pela mulher. Maria, como mãe de Jesus, foi o instrumento para que essa promessa se cumprisse. Dessa forma, o estigma que a mulher carrega desde os tempos de Eva é transformado em um testemunho de graça. A mulher também torna-se um símbolo da igreja fiel de Cristo, um reflexo da restauradora graça de Deus. O apóstolo Paulo fala em Efésios 5:25-27 sobre a igreja como esposa de Cristo, que deve ser amada, purificada e santificada.
Conclusão
Vimos neste artigo, que essa inimizade profética entre a mulher e a serpente instaurada pelo próprio Deus, retrata que, desde o início, Deus não as fez cúmplices, mas adversárias. Esse conflito não é apenas entre Eva e o mal, mas é uma batalha que transcende o tempo, representando a luta de toda a humanidade.
A Semente Prometida, em Gênesis 3:15, Cristo, veio para cumprir a promessa de redenção e libertação. Jesus, em Sua vida, morte e ressurreição, apagou os estigmas da culpa e da vergonha que foram impostos à mulher desde o Éden. Ele restaurou a dignidade perdida, oferecendo perdão, graça e reconciliação a todos, independentemente do gênero.
Assim, ao refletirmos sobre o propósito da criação da mulher, a vemos livre dos estigmas do passado, restaurada e valorizada na obra redentora de Deus. Em Cristo, todos somos redimidos – homem e mulher, unidos pela graça que nos foi dada.
O que você acha dessa inimizade profética entre a mulher e a serpente? Deixe seu comentário e compartilhe esse artigo com alguém que precisa conhecer essa abordagem!